Apesar de sua alta prevalência – semelhante à da Doença de Alzheimer e da Hipercolesterolemia Familiar – a Doença Celíaca ainda é tratada com negligência por parte do poder público, da comunidade científica e de muitos profissionais de saúde. Estima-se que 1 em cada 100 pessoas seja celíaca, mas a maior parte dos casos permanece sem diagnóstico ou acompanhamento adequado.
É como se a ausência de um medicamento específico tornasse a doença menos digna de atenção. Se houvesse um comprimido para tratar a doença celíaca, certamente veríamos campanhas, pesquisas patrocinadas, laboratórios envolvidos, marketing ativo. Mas como o tratamento é “apenas” a exclusão do glúten, a responsabilidade recai quase totalmente sobre os ombros do paciente — que precisa lidar com uma rotina de vigilância permanente, risco de contaminação cruzada e desconhecimento generalizado.
A exclusão do glúten não é simples. Ela exige conhecimento, suporte emocional e social, e políticas públicas que garantam segurança alimentar. A invisibilidade da doença também é alimentada pela falta de preparo técnico. Muitos profissionais de saúde nunca ouviram falar em contaminação cruzada, ou desconhecem que a doença celíaca pode se manifestar sem sintomas digestivos clássicos. É urgente rever a grade curricular dos cursos da área da saúde. Nutrição, Medicina, Enfermagem e Gastronomia precisam tratar com profundidade a doença celíaca, o manejo da dieta isenta de glúten e as implicações sistêmicas dessa condição. A doença celíaca não é rara, mas ainda é invisível. Enquanto não olharmos para ela com a seriedade que merece, continuaremos atrasando diagnósticos, perpetuando sofrimento e negando dignidade a milhares de brasileiros.
*Dra. Patrícia Fernandes Veloso é médica, especialista em Clínica Médica pela Santa Casa de Misericórdia de Belo Horizonte. Nutróloga pela ABRAN. Membro da International Society for the Study of Celiac Disease (ISSCD). Membro do Conselho Científico da Acelbra-MG. Celíaca. Patrícia Fernandes Veloso* JUL/2025 BELO HORIZONTE / M
Patrícia Fernandes Veloso é médica e diretora consultiva da Acelbra-MG
Doença celíaca: diagnóstico salva vidas!
O mês de maio é dedicado à conscientização sobre a doença celíaca, condição autoimune cujo tratamento consiste em seguir uma dieta sem glúten
Dra. Patrícia Fernandes Veloso*
A doença pode surgir em qualquer idade, mas a maioria dos diagnósticos ocorre na vida adulta, especialmente em mulheres
A doença pode surgir em qualquer idade, mas a maioria dos diagnósticos ocorre na vida adulta, especialmente em mulheres
Você sabia que cerca de 1% da população brasileira tem doença celíaca? É a mesma prevalência do Alzheimer. A diferença é que, enquanto o Alzheimer é amplamente debatido, a doença celíaca ainda é pouco conhecida e, frequentemente, negligenciada.
Trata-se de uma condição autoimune e genética. Quando uma pessoa celíaca ingere glúten – proteína presente no trigo, no centeio e na cevada –, seu sistema imunológico reage de forma anormal, provocando inflamação no intestino e prejudicando a absorção de nutrientes.
A doença pode surgir em qualquer idade, mas a maioria dos diagnósticos ocorre na vida adulta, especialmente em mulheres. Ao contrário do que muitos pensam, os sintomas vão muito além do intestino. Ela é chamada de “doença camaleão” justamente por isso: enxaqueca, fadiga, infertilidade, zumbido, anemia e alterações hormonais são manifestações comuns.
Por causa dessa variedade de sintomas, o diagnóstico costuma demorar de cinco a oito anos. Falo com conhecimento de causa: sou médica e celíaca. Meu único sintoma durante duas décadas foi enxaqueca. Passei por diversos especialistas, e nenhum cogitou a doença.
Isso acontece porque, na formação médica, ainda se ensina que a doença celíaca é rara, infantil e marcada por diarreia – o que não condiz com a realidade. A negligência vai além dos consultórios. Faltam campanhas públicas, capacitação de profissionais da saúde e ações educativas nas escolas. Muitos pacientes só recebem o diagnóstico quando já têm complicações graves: osteoporose, doenças autoimunes e até câncer intestinal.
Também é importante diferenciar a doença celíaca da sensibilidade ao glúten não celíaca. Ambas exigem uma dieta rigorosamente isenta de glúten e de contaminação cruzada, mas o diagnóstico deve ser feito antes da retirada do glúten, com exames específicos.
Maio é o Mês da Conscientização sobre a Doença Celíaca. A Associação dos Celíacos do Brasil – Seção Minas Gerais (Acelbra-MG) e muitos pacientes têm se mobilizado para mudar esse cenário. O diagnóstico precoce pode evitar anos de sofrimento e salvar vidas. É hora de tirar a doença celíaca da invisibilidade.
Dra. Patrícia Fernandes Veloso é médica e diretora consultiva da Acelbra-MG